A Fenda (Poema, 2019)
No
centro de toda existência
Reside
uma fenda.
É
ela que nos irmana.
A
fenda é a face do abismo.
O
abismo a tudo escruta, a tudo cerca, em tudo ressoa.
À
arte de tentar encobrir a face do abismo,
Labor
assumido por aqueles para os quais a consciência se impõe,
Chamamos,
corriqueiramente, “vida”.
Pode-se
tentar cobrir a face do abismo com beleza,
Mas
a beleza será tragada.
Pode-se
tentar cobrir a face do abismo com nobreza,
Mas
a nobreza será cobrada.
Do
fundo do abismo ressoam ecos.
São
vozes de instantes outrora devorados,
Entre
instantes mortos e instantes a morrer,
Implorando
à fenda pelos ecos que virão.
Se
nosso eco pela eternidade ressoará
Ou
se o silêncio finalmente reinará,
Se
o tempo, ele mesmo, vier a colapsar,
Eis
um mistério a suportar.
No
interior da fenda, duas opções:
O
Tudo existir ou o Nada residir.
À
margem da fenda, o pai dos mistérios
Perturba-nos
o espírito e o convoca a decidir.
Se
o fundo do abismo for o cume real
E
nosso Norte um erro de direção,
Toda
dor e todo amor sucumbidos
No
fundo do abismo unir-se-ão.
E
no vazio primordial,
Agora
em comunhão,
Prodigiosamente
Novos
cosmos originarão.
Mas
se o fundo do abismo for apenas chão,
Séculos
e instantes não mais surgirão:
Todo
o tempo será sorvido
E todos os ecos silenciarão.
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