Pondée: a ética barata
Pondée: a ética barata
Resposta escrita em 17/09/2013, publicada
originalmente na ANDA
Neste dia 16/09/2013, a Folha de São Paulo publicou em seu site o texto chamado
"A Ética das Baratas" do “filósofo" Luiz Felipe Pondée contra defensores
de animais[1].
O texto é tão fraco que não valeria nem comentar, mas como se trata de um
pop-star da divulgação de ideias no país, aí vai uma pequena resposta em 10
comentários.
1. Começar um artigo por “As pessoas têm crenças desde a pré-história” é coisa de moleque
ginasial.
2. Ele diz: “Esquecemos
que direitos e escolhas são produtos mais caros do que bolsa Prada”. Mas
ele mesmo não aplica tais direitos nem aos animais nem aos humanos que escolhem
não compactuar com a tortura dos mesmos.
3. O grande filósofo da moda nem se deu ao
trabalho de averiguar tudo o mais que foi escrito sobre o tema desde Singer: “Em 1975, o filósofo utilitarista australiano
Peter Singer publicou um livro chamado "Animal Liberation", que
deixou o mundo de boca aberta”.
4. Que eu saiba filósofo que se preze precisa
argumentar sobre as afirmações que faz. Se o cara apenas diz uma estupidez como
“O mundo não sobreviveria a uma praga de
pessoas que não usam sapatos de couro porque os considera fruto da opressão
capitalista contra os bichinhos inocentes” sem achar que precisa
justificar, ele não é filósofo, mas apenas um polemista barato.
5. Pondée chama quem se preocupa com animais de
"seita verde". Nem se deu
ao trabalho de entender a diferença entre ética animal e ambientalismo e a
crítica ao coletivismo do ambientalismo em prol de uma ética que olhe para os
entes individuais, concretos.
6. Citar Kafka é uma das coisas que autores
fazem para parecer inteligentes. No caso, quando diz que “Nem Kafka foi tão longe ao apontar o ridículo de um homem”, deve-se
dar crédito, pois de ridículo esse pseudo-pensador entende mesmo.
7. O argumento “A pergunta é: essa moçadinha seguidora de uma mistura de filosofia
singeriana aguada e budismo light (com pitadas de delírio) já olhou para
natureza a sua volta?” para questionar o não torturar outros seres é que é
ridículo. Há uma diferença substancial entre você não ser o autor de um ato que
pode evitar e aceitar que há comportamentos naturais que estão além de nossas
opções. Será que o grande pensador não diferencia quem é o ativo moral, quem
tem capacidade de escolher seus atos? E do modo que fala parece que defende que
tudo o que acontece na natureza pode ser feito sem problemas por humanos. Não
há lugar para escolha moral. Outro pensamento pífio.
8. Outro “argumento” sem argumento: “E mais: normalmente essa moçadinha é bem
narcisista e muito pouco solidária com gente de carne e osso”. Essa é uma
das formas de tentar ganhar um debate sem ter razão: colocar algo que não tem a
ver com o que se está discutindo, mas que, mesmo que não seja verdade (e mesmo
que fosse), leva o público a alguma emoção o fazendo ejacular junto com o
polemista (principalmente quando o assunto mexe com coisas que o público não
quer ver em si mesmo). Isso é um truque velho. Tenho certeza que o tal autor
deve ter estudado isso em algum primeiro ano de Filosofia.
9. Outra vez fala sem o mínimo estudo: “se não comermos os bois e as vacas, eles vão
fazer uma manifestação na Paulista pedindo direito a pastos de graça ("os
sem-pastos") para garantir a sobrevivência de seus milhões de cidadãos
bovinos”. É difícil ver que a população bovina é tão extensa justamente por
causa da criação? É hoje que a criação de gado está acabando com ecossistemas
inteiros. É a criação, não a ausência de criação, que está transformando o
mundo em pastos e agriculturas geradoras de ração para gado.
10. A última questão é já uma velha falácia: “Pergunto a esses adoradores de baratas: ele
já pensou que as alfaces também sofrem?” Senhor Pondée: já ouviu falar de
sistema nervoso, de consciência sobre a sensibilidade? Até você deve conseguir
perceber a diferença entre um boi ou uma barata e um pé de alface.
Em suma,
trata-se de um texto que é tudo menos filosófico. O autor mostra mais uma vez
que gostou da posição de polemista barato e famoso, bastando para isso sua pose
infantil de superioridade intelectual.
Seu texto
é mal escrito, suas afirmações não se justificam, nada é baseado em algum
argumento válido, nada é baseado em algum estudo, em algum fundamento. O autor
quer apenas parecer inteligente para seu público torpe (que, como dito acima,
adorarão ter alguém famoso zombando daquele amigo vegetariano, para que ele
também se sinta superior por não precisar olhar para a questão nem repensar
seus hábitos) sem nem perceber a escrotice de querer sabotar quem se preocupa
com a tortura de seres sencientes. Ou seja, como é comum no país, é mais um
cara que acorda, defeca um artigo e ganha louros de pop-star intelectual.
Dennis
Zagha Bluwol, 2013
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